AGRICULTURA
A produção de alimentos antigamente era realizada em roçados, manejados via Sistema Agrícola Ancestral, denominado como Coivara: técnica na qual era realizada a queima controlada de determinada porção do território visando o preparo da área para o plantio. A técnica da Coivara, diferentemente do que pondera o conhecimento ocidental, exigia um saber dos povos originários de produzir com autonomia e em sintonia com os ritmos de regeneração de suas porções de natureza.
Baseado nas observações das fases da lua, os indígenas cultivavam em seus sistemas agrícolas diversos alimentos, como a mandi’o (mandioca), a jety (batata-doce) e o avatixi (milho), este último considerado um alimento sagrado na cultura guarani. Além da produção de alimentos, além havia a coleta de plantas alimentícias disponíveis na natureza (a exemplo do palmito) e a utilização de plantas medicinais, como nhemori pará (vassoura do mato), uvyrá apojú (espinheira santa), tajy pytã (ipê roxo), entre outras.
O Sistema Agrícola Indígena, como vemos, é apenas uma parte do Sistema Tradicional Indígena. Até meados do século XX, havia grande disponibilidade de áreas. destinadas para produção, sendo possível realizar com facilidade as rotações de áreas. A cada dois anos, à medida que o solo apresentava sinais de desgastes, os indígenas buscavam novas áreas florestadas, ricas em nutrientes, para iniciar um novo ciclo produtivo.
Nesse Sistema Agrícola Itinerante, as áreas permaneciam em pousio, regenerando-se naturalmente, por no mínimo 15 anos . Estudos realizados junto a povos tradicionais do Vale do Ribeira, diga-se de passagem, levaram ao reconhecimento do Sistema Agrícola Tradicional e Itinerante, conhecido popularmente pela da técnica da Coivara, como Patrimônio Cultural do Brasil (ISA, 2017; IPHAN, 2018).
No início dos anos 2000, a comunidade obtém o primeiro trator, destinado somente para o revolvimento do solo, enquanto os plantios (milho, feijão e soja) eram realizados através de uma plantadeira movida a tração animal. É nesse contexto que foram utilizados os primeiros agrotóxicos, adubos químicos e sementes convencionais nas áreas de monocultivos do território indígena.
No ano de 2006, o território tradicional guarani, passou pelo um processo de expansão de suas áreas produtivas, com a chegada de mais equipamentos agrícolas, sendo eles: um arado de disco e uma plantadeira duas linhas, ao qual a comunidade obteve através de um projeto junto a Funai.
Em 2010, a comunidade é contemplada com os primeiros equipamentos e implementos próprios: plantadeira agrícola, trator e pulverizador, oriundos de um programa de compensação da Usina Hidrelétrica de Nonoai, cujo objetivo consistiu em desenvolver projetos voltados à produção de alimentos nos territórios indígenas. Com as novas tecnologias, ocorreu gradualmente a ampliação da agricultura convencional na área indígena. Anteriormente, a produção era concentrada em pequenas áreas em função da baixa densidade tecnológica disponível para a produção de grãos.
Atualmente, embora a agricultura convencional seja hegemônica, coexistem diferentes sistemas produtivos no território indígena. O primeiro, baseado na monocultura convencional com produção de grãos (soja, milho, trigo, com aproximadamente 90 hectares). O sistema convencional é caracterizado pela produção de grãos em sistema de plantio direto, com objetivo principal de geração de renda para as famílias do território guarani.
O sistema agrícola convencional não utiliza o uso de coberturas, embora sejam reconhecidamente importantes para o manejo e a conservação do solo. As áreas produtivas têm incidência de processos de erosão em períodos mais chuvosos. Por vezes é necessário o replantio dessas lavouras e há perdas da fertilidade do solo causados pelo processo de lixiviação.
O plantio é realizado por equipamentos agrícolas próprios da comunidade (um trator e uma plantadeira). Além desses equipamentos agrícolas a comunidade conta com serviços terceirizados de agricultores não indígenas para o plantio dos grãos, além da aplicação de agrotóxicos, com a utilização de pulverizadores.
A comunidade realiza o plantio com sementes convencionais e transgênicas de milho, soja e trigo, e mais recentemente, aderiu a utilização de agrotóxicos e adubos químicos. Esses insumos são adquiridos junto a agropecuárias do município, as quais vendem um pacote completo onde o produtor fecha um contrato como “forma de financiamento”, haja vista que os indígenas situados em áreas demarcadas não se enquadram nas políticas de financiamento da produção agrícola pelas organizações financeiras. De certo modo, seja de forma particular ou através de financiamento público, esse modelo conduz a dependência do produtor do sistema, pois o mesmo precisa produzir para que haja a geração de renda, mantendo-se neste ciclo.
Área com cultivo de trigo
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